quarta-feira, 23 de setembro de 2009

POESIA

CHAPADA, MG,1999


Não me lembro de onde não se podia mais avistar o mar.
Desde que o deixei não tive a fraqueza de olhar para trás.
Mal tive coragem de partir.
Preciso voltar para o meu lugar.
Qualquer lugar que não seja aqui, entre o que deixei para trás e a vontade imensa de voltar para viver e morrer ali, bem ali,
com os olhos cheios de mar
rebentando de ser feliz.

Márcio Ares.

POESIA

PILANNSBERG PARK, AFRICA DO SUL, JANEIRO 2007



Quando eu era ainda um toco de gente, nascido miudinho e triste, como quem tem fome,
num lugarzinho miúdo e triste que mal caberia no esquecimento,
eu tinha um mar. Um riachinho de água salgada.
Era, claro, igualmente miúdo e triste, o coitado.
Mas, para mim, era enorme de grande e lindo o mar que eu tinha.
Eu nem sabia porque era assim, mas ondas nele se faziam
com a minha pequena força e as pedras que eu jogava.
Alguma coisa, feliz e misteriosa, foi ficando em mim.
Depois, conheci, por força de crescer e ser feliz, ou talvez por acaso,
outros rios, outros riachos, muitos mares pra eu amar.
Mas nenhum deles tão importante, nem sequer tão lindo,
quanto o meu primeiro, triste e miudinho mar.
Márcio Ares. 2009.

POESIA

MIKONOS, GRÉCIA, NOVEMBRO 2000



MOTIVAÇÃO


Tudo o que vejo fora do lugar é meu verso.
O fantasma que me atravessa de madrugada é a gota dágua no vidro da janela.
A claridade do outro lado é uma curva de estrada, uma casa no caminho do mar,
a imensidão que dá fôlego à palavra que me arde.
Tudo o que eu sei fora do lugar é razão inventada.
Só o sentimento da coisa me parece verdade.
Do contrário, o pássaro fica pássaro que não passa,
a estrada fica estrada sem viagem,
o certo fica humanamente acertado.
Não ver é muito longe, nunca o mais de perto que me assalta.
E porque tudo o que eu sei é verso,
e porque tudo o que eu sou é poeta,
vou a caminho do mar quando o incerto mais me falta.

Márcio Ares. 2009.